Autismo

Autismo em meninas: por que o diagnóstico demora — e o que está mudando

Em resumo

Durante anos, o autismo foi diagnosticado com muito menos frequência em meninas do que em meninos. Não porque existam menos meninas autistas, mas porque os critérios foram construídos com base na observação de meninos e porque muitas meninas aprendem a camuflar: copiam, imitam, ensaiam. Ficam tão ocupadas parecendo normais que ninguém vê o que isso lhes custa. A diferença está diminuindo — de 4,7 meninos para cada menina em 2012 para 3,4 em 2025 —, mas muitas ainda só recebem o diagnóstico na vida adulta, já esgotadas.

Por que tão poucas receberam diagnóstico

Os critérios foram construídos com base em meninos. Os instrumentos de diagnóstico partiram de perfis masculinos e procuram mais aquilo que aparece por fora — movimentos repetitivos, comportamentos evidentes — do que aquilo que acontece por dentro.

Elas camuflam. A camuflagem, também chamada de masking, reúne estratégias usadas para parecer neurotípica e evitar a rejeição: observar como os outros falam, copiar gestos, forçar o contato visual, decorar frases prontas e ensaiar conversas diante do espelho.

E funciona… por fora. Tiram notas dentro da média, não incomodam e costumam ser bem-vistas pelos adultos. Espera-se que as meninas sejam mais sociáveis, por isso suas dificuldades acabam sendo atribuídas a outras coisas: é tímida, é estranha, é sensível demais, é mimada.

O custo não aparece. Representar durante seis horas seguidas esgota. E esse esgotamento não aparece na sala de aula: aparece em casa, todas as tardes.

O que aparece em casa

Ela pode chegar da escola e desabar. Pode repetir em voz alta as conversas do dia, tentando descobrir onde errou. Pode ter interesses intensos que não chamam a atenção de ninguém: anime, videogames, um grupo musical ou leitura. Pode ter uma amiga que copia em tudo e ficar perdida quando essa amiga não está.

Se dizem que «na escola ela está ótima», mas em casa você a vê desabar todas as tardes, não são duas meninas diferentes. É a mesma menina, e a que aparece em casa é aquela que já não consegue continuar representando.

O que aparece na sala de aula

A aluna que tira boas notas, não incomoda e parece estar bem. Aquela que ninguém percebe.

É fácil pensar que o esforço que ela faz prova que está bem — e é justamente esse esforço que precisa ser observado. É nos corredores, no recreio e nos trabalhos em grupo que suas dificuldades costumam ficar mais evidentes.

E, quando uma família diz «em casa ela é outra menina», está contando a parte que você não vê.

E as que chegam à vida adulta

Muitas só recebem o diagnóstico já adultas, depois de anos de esgotamento e, com muita frequência, depois de uma trajetória marcada por diagnósticos equivocados.

Mais da metade das mulheres autistas recebeu anteriormente pelo menos um diagnóstico psiquiátrico diferente — 54,2%, em comparação com 40,9% dos homens —, entre eles o transtorno de personalidade borderline. Muitas chegam com ansiedade, depressão ou transtornos alimentares — consequências, em muitos casos, de uma vida inteira sem uma explicação.

Para elas, o diagnóstico não é um rótulo. É a primeira vez que a sua vida inteira faz sentido.

O que está mudando

A diferença está diminuindo. Em 2012, os meninos tinham 4,7 vezes mais probabilidade de receber o diagnóstico do que as meninas. Em 2018, essa proporção caiu para 4,2; em 2023, para 3,8; e, em 2025, para 3,4.

Alguns estudos indicam que a proporção real pode estar mais próxima de 3 para 1 ou até de 2,5 para 1. Em outras palavras: quanto melhor se observa, mais meninas são identificadas.

Perguntas frequentes

O autismo é diferente nas meninas?

O autismo é o mesmo. O que muitas vezes muda é a forma como ele aparece por fora — e quanto esforço elas fazem para que não apareça.

Minha filha tira boas notas e tem amigas. Ela pode ser autista?

Sim. Boas notas e amizades não descartam o autismo. Observe o custo: como ela chega em casa, quanto tempo precisa para se recuperar e o que acontece quando ninguém está olhando.

E se a escola disser que ela está perfeitamente bem?

Conte o que você observa em casa. Não são duas meninas diferentes: é a mesma menina, com a máscara ou sem ela.

Vale a pena buscar o diagnóstico se ela vai levando?

Vale, porque pode ajudá-la a deixar de pensar que há algo errado com ela. O diagnóstico não cria a dificuldade: ele dá um nome, e com um nome é possível ajudar.

Referências

Os dados sobre a evolução da proporção entre meninos e meninas vêm das estimativas do CDC entre 2012 e 2025. O percentual de diagnósticos psiquiátricos anteriores vem de um estudo publicado no Journal of Child Psychology and Psychiatry em 2025.

Guias gratuitos

O custo que não aparece na escola

Os «Guias rápidos» — para famílias e para professores — ajudam a observar o esforço que não se vê e a responder ao que a criança precisa.

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E se quiser se aprofundar, o manual «Autismo na vida diária» percorre essas situações e muitas outras, com casos reais.

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Iris Green

Escreve sobre neurodivergência: guias práticos para famílias, professores e adultos, e ficção ilustrada. Sobre mim